Entenda por que um transplante de cabeça jamais pode acontecer

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Um neurocirurgião italiano afirma que ele e sua equipe conseguiram realizar o primeiro transplante de cabeça bem sucedido da história, que utilizou dois cadáveres na China, segundo informações. O procedimento, que demorou 8 horas para terminar, foi conduzido pelo doutor Sergio Canavero, que diz que será capaz de realizar a cirurgia em seres humanos vivos “iminentemente”, de acordo com o jornal inglês The Telegraph.

Só que muitos especialistas já mostraram um certo ceticismo em relação ao transplante de cabeça de Canavero ser realizado em uma pessoa viva. O motivo é que não seria possível manter a cabeça de uma pessoa viva até ser colocada no corpo do “doador.”

“(O transplante de Canavero) é a continuação de uma fraude desprezível”, disse Arthur Caplan, professor da Universidade de Nova Iorque. Caplan, um dos responsáveis pelo criação de um sistema de distribuição de órgãos para transplantes nos Estados Unidos, acredita que esse tipo de procedimento jamais será possível.

“Nós temos um programa de transplante de face aqui (na Universidade de Nova Iorque) e já é muito difícil realizar apenas o transplante de face. Ele requer doses massivas de imunossupresores (medicamentos utilizados para evitar a rejeição de um órgão transplantado)”, disse Caplan.

“A cabeça seria um problema ainda maior, pois requer doses ainda maiores. Provavelmente, te mataria em alguns anos por rejeição ou infecção”, complementou o professor.

Por conta do fato de que existiriam diferenças bioquímicas entre a cabeça e o corpo do doador, a pessoa poderia jamais recobrar a consciência normal. “Não é igual trocar uma lâmpada. Se você mover a cabeça e o corpo, você está colocando um novo ambiente químico em uma nova entrada neurológica. Eu penso que isso deixaria uma pessoa louca antes de morrer”, disse Caplan.

Além disso, um transplante de cabeça bem sucedido necessitaria de diversos cirurgiões, que precisariam ligar a cabeça a uma infinidade de nervos e vasos sanguíneos, bem como a medula espinhal, ao corpo do doador.

Caplan também acredita que se Canavero realmente desenvolveu uma técnica para fazer reconectar a medula espinhal e os vasos seguíneos, ela poderia ser melhor utilizada para outras finalidades.

“Se ele sabe como reparar e reconectar uma medula espinhal, ele poderia fazer isso para pessoas que possuem lesões na medula. Existem milhões de pessoas nessa situação ao redor do mundo. Elas querem andar, ter controle sobre seus corpos e seus intestinos”, afirmou Caplan.

Canavero, que realizou o procedimento nos cadáveres ao lado do médico chinês Xiaoping Ren, da Universidade Médica de Harbin, na China, não publicou qualquer detalhe da operação, o que só dá mais sustentação para os especialistas que afirmam se tratar de uma fraude.

Outro motivo de desconfiança, segundo Caplan, é que Canavero “não fez o procedimento em animais para mostrar que ele poderia funcionar”. Ele lembra que em janeiro de 2016, Canavero afirmou ter feito o transplante de cabeça em um macaco vivo. O animal chegou a sobreviver ao procedimento “sem lesões neurológicas”, mas morreu 20 horas depois.

“Ele deveria ser capaz de manter os animais vivos ou, pelo menos, aparentarem estar conscientes por um ano ou dois”, afirmou Caplan.

Em 1970, o doutor Robert White afirmou ter transplantado a cabeça de um macaco em um novo corpo. Mas o animal morreu nove dias depois, após o corpo rejeitar a nova cabeça.

Caplan, inclusive, chega a citar o infame médico nazista Josef Mengele, que realizou diversos experimentos terríveis em humanos, para descrever, de uma vez por todas, o procedimento. “É cruel e é, certamente, uma receita para o desastre”, concluiu.

Fonte: Live Science

Discussão1 Comentário

  1. Digamos que, em um transplante de cabeça, bem sucedido, João tivesse sua cabeça transplantada para Pedro.
    Ao acordar, quem seria a pessoa resultante deste transplante: Pedro, o receptor, ou João, o doador?

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