‘Cura gay’: o que a ciência acha disso?

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O assunto da popularmente chamada “cura gay” vira e mexe volta à tona. Recentemente, uma decisão do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho autorizou psicólogos a oferecer supostos tratamentos contra a homossexualidade.

Com a publicação da decisão, o assunto voltou a pipocar na internet e tem sido constantemente comentada em todas as redes sociais. Com a popularização do tema, acaba surgindo uma série de dúvidas em alguns internautas e o portal G1 fez um levantamento das 7 principais perguntas sobre o assunto.

Confira os questionamentos e nossas respostas a eles:

1 – A homossexualidade é considerada uma doença?

Não. A primeira vez que homossexualidade foi retirada da lista de doenças foi no ano de 1973, pela Associação Americana de Psiquiatria (APA, sigla em inglês). Logo em seguida, diversas entidades de saúde ao redor do mundo seguiram a recomendação da APA.

Finalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também aceitou as observações dos pesquisadores americanos em 1990. Aqui no Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) adotou a visão em 1999.

Antigamente, usava-se o termo “homossexualismo” (com ‘ismo’ no final). Esse sufixo remete à classificação de doenças e essa palavra passou a ser considerada pejorativa.

2 – Se não é doença, então é o quê?

A homossexualidade é apenas uma orientação sexual. Os pesquisadores da APA, da OMS e de todas as entidades de saúde que optaram pela exclusão da homossexualidade da lista de doenças chegaram à conclusão de que não existe nenhuma evidência de que ser gay deveria ser classificado desta forma.

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O psicólogo Edson Defendi disse ao G1: “O que vem sendo comprovado dentro das pesquisas, tanto em psicologia como em outras áreas, é que a homossexualidade é uma orientação sexual tão saudável quanto a heterossexualidade ou a bissexualidade”.

3 – Mas então por que há homossexuais que procuram ajuda profissional em relação à sua sexualidade?

O preconceito da sociedade e a pressão social para que a própria sexualidade seja escondida e negada leva à transtornos emocionais que, consequentemente, encaminha gays e lésbicas à terapia. Ninguém procura um profissional por ser gay ou para deixar de sê-lo.

“Eles querem entender e compreender para viver da melhor forma possível o seu desejo sexual. Muitas vezes preocupados com as questões familiares e como a sociedade pode encarar isso. Tentamos ajudar a encontrar caminhos e estratégias para lidar com o preconceito e lidar com questões muito enraizadas na sociedade”, disse Defendi ao G1.

4 – Anteriormente os psiquiatras consideravam homossexualidade um distúrbio. Por que mudaram essa visão?

Antigamente, as pessoas acreditavam que o planeta Terra era plano – entende onde queremos chegar? A ciência evolui e não tem problemas em admitir que esteve errada no passado.

“É uma mudança que vem desde o início da psicanálise. A própria evolução da sociedade vê que não existe ‘cura gay’. Estudos antropológicos mostram que existiram gays entre os gregos, entre os índios, e que era muito aceito. Tudo isso mostra que a homossexualidade existe e é natural. Isso é uma questão social e não psicológica”, explica o especialista em sexualidade Sylvio José Rocha, em entrevista ao G1.

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O estudo que foi pioneiro na área e levou às conclusões que se têm hoje foi publicado em 1957, pela psicóloga Evelyn Hooker. Na pesquisa, ela comparou 30 homossexuais com 30 heterossexuais e não encontrou qualquer distúrbio psicológico no grupo gay.

Um artigo que comenta sobre essa pesquisa, do psiquiatra Jack Drescher, comenta: “Foi uma descoberta que refutou as crenças psiquiátricas de seu tempo que diziam que todos os homens gays sofriam graves distúrbios psicológicos”.

5 – Como sabemos que ser gay não é uma escolha?

A decisão de retirar a homossexualidade da lista de doenças não foi aleatória ou de um dia pro outro. Foi baseada em centenas de estudos nas mais diversas áreas. Entre eles, o já citado estudo de Evelyn Hooker.

Os relatórios da APA, por exemplo, reúnem esta e diversas outras pesquisas importantes. Por exemplo, uma descoberta fundamental à área foi feita em 1992: os homens gays já nascem gays. Um neurocientista, Simon LeVay, conseguiu uma evidência biológica para comprovar isso. Analisando o tecido de mulheres, homens heterossexuais e homens homossexuais, ele encontrou diferenças em seus cérebros, na região do hipotálamo.

Outra pesquisa citada pela APA envolveu 3.261 gêmeos com idades entre 34 e 43 anos e aponta que “análises quantitativas mostraram uma variação do comportamento atípico do gênero durante a infância e que a orientação sexual dos adultos é em parte devida à genética”.

A APA diz que “a opinião preponderante da comunidade científica é que há um forte componente biológico na orientação sexual, e que interação genética, hormonal e fatores ambientais interagem para a orientação de uma pessoa. Não há provas científicas de que a orientação sexual, seja heterossexual, homossexual ou de outra forma, seja uma escolha de livre arbítrio”.

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6 – Um especialista, como um psicólogo, pode promover uma ‘cura gay’, ou seja, ajudar a fazer com que um homossexual vire heterossexual?

Não. Principalmente porque a psicologia não tem permissão para interferir no foro íntimo dos sujeitos. A psicologia apenas interpreta e tenta entender o que incomoda o paciente.

“Quando você aprofunda, percebe-se claramente que há uma questão de fundo emocional por não ser aceito pela mãe, pelo pai, pelos colegas de escola, pela sociedade, do que pela sexualidade dela. O trabalho é no sentido de que ele possa aceitar o próprio desejo”, explicou, ao G1, o especialista Sylvio Rocha.

Em tempos antigos, profissionais da psiquiatria chegaram a tentar várias técnicas na tentativa de “curar” a homossexualidade. Entre elas, a prisão, a hipnose, a castração, tratamento de choque e até mesmo a lobotomia (um tipo de intervenção cirúrgica no cérebro).

7 – Que tipo de consequência pode causar um tratamento que tente ‘encaminhar’ o gay para virar heterossexual?

De acordo com relatórios da APA e da OMS, os riscos associados a qualquer tratamento coercitivo e violento contra homossexuais incluem depressão, suicídio, ansiedade, isolamento social e diminuição da capacidade de intimidade.



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