Encontro histórico: Trump e Kim Jong-un assinam acordo de cooperação

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Com um aperto de mãos em frente a bandeiras dos EUA e da Coreia do Norte, Donald Trump e Kim Jong-un marcaram o início da cúpula histórica sobre a desnuclearização da Península Coreana, no primeiro encontro já realizado entre líderes dos dois países. Ao final da reunião, Trump e Kim se sentaram em frente a jornalistas e assinaram um documento de cooperação.

Por volta das 2h30 (em Brasília), os presidentes assinaram o acordo que, segundo eles, representa uma “cooperação entre os dois países”. O que se sabe até o momento é que o documento assinado pelos dois líderes inclui os seguintes pontos:

– Reafirmando a Declaração de Panmunjon, de 27 de abril de 2018, a Coreia do Norte se compromete a trabalhar para a “completa desnuclearização da península”;

– EUA e Coreia do Norte se comprometem a recuperar restos mortais de prisioneiros de guerra, começando pela imediata repatriação daqueles já identificados;

– Ambos os países irão “construir um duradouro e estável regime de paz” na Península Coreana;

– Os dois líderes também se comprometeram a estabelecer novas relações entre os EUA e a Coreia do Norte, de acordo com o desejo de paz e prosperidade da população dos dois países;

– Os EUA se comprometeram a dar “garantias de segurança” à Coreia do Norte;

– O Secretário de Estado americano, Mike Pompeo, deverá se reunir “na data mais próxima possível” com um alto funcionário norte-coreano para continuar o diálogo bilateral sobre a desnuclearização.

Trump declarou que “os dois lados ficarão impressionados com o resultado da cúpula”. Já o líder norte-coreano afirmou que “o mundo verá uma grande mudança”. Com o discurso de deixar o passado para trás, o republicano ainda afirmou que “com certeza” irá convidar Kim Jong-un para visitar a Casa Branca.

O presidente americano reconheceu Kim Jong-un como um “negociador muito inteligente e valioso”, que negocia em favor de seu povo e ama o seu País. Questionado pelos repórteres sobre o que mais o surpreendeu durante a cúpula, Trump disse que o líder norte-coreano tem uma “grande personalidade” e é “muito inteligente. Uma grande combinação”. Para finalizar, ele ainda declarou que os líderes tiveram um ótimo dia e “ambos aprenderam muito sobre o outro e sobre os nossos países”.

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Kim Jong-un estava à vontade perante as câmeras e disse que ele e o presidente americano superaram “velhos preconceitos e práticas” para estarem frente a frente em Cingapura. O ditador se mostrou otimista na reunião entre as duas delegações: “Eu acredito que esse é um bom prelúdio para a paz”, afirmou. Trump respondeu: “Eu também”.

Pouco antes, o presidente americano disse que era uma “honra” participar da discussão e previu que teria um “relacionamento fantástico” com Kim, integrante de uma dinastia que há sete décadas controla o país mais fechado do mundo. Ao convencer Trump a participar da cúpula, ele conseguiu o que seu pai e seu avô buscaram sem sucesso: legitimar a Coreia do Norte no cenário internacional e negociar em pé de igualdade com a nação mais poderosa do mundo.

A cúpula começou às 9h04 de terça-feira (22h04 de segunda-feira em Brasília). Todo o protocolo foi coreografado para mostrar uma situação de equilíbrio entre os dois lados. Donald Trump e Kim Jong-un entraram ao mesmo tempo no local, onde apertaram as mãos diante de fotógrafos e cinegrafistas. Ao fundo, havia seis bandeiras dos EUA e seis bandeiras da Coreia do Norte, intercaladas.

Quando ambos caminhavam lado a lado depois dos cumprimentos, as câmeras da emissora americana CNN captaram o tradutor de Kim Jong-un transmitir a Donald Trump o sentimento do norte-coreano em relação ao ineditismo do encontro: “Muita gente vai pensar que esse é um filme de ficção científica”. Os dois líderes apareceram na sacada do hotel por alguns segundos ao fim da reunião privada. À distância, repórteres perguntaram três vezes a Kim se ele estava comprometido com a desnuclearização, mas não tiveram resposta.

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A cúpula começou com um encontro de 48 minutos dos dois líderes, do qual participaram apenas tradutores. Diante de jornalistas, antes do início das conversas, Donald Trump declarou que ele e Kim Jong-un teriam uma “grande discussão” e a reunião seria um “tremendo sucesso”. Em seguida, o norte-coreano falou com desenvoltura para quem governa um país no qual não existe imprensa livre. “Os velhos preconceitos e práticas foram obstáculos no nosso caminho, mas nós superamos todos e estamos aqui hoje.” Ao seu lado, Trump respondeu: “É verdade”.

Em seguida, as delegações americana e norte-coreana tiveram uma reunião bilateral ampliada, com o mesmo número de autoridades de cada lado da mesa. Donald Trump e Kim Jong-un sentaram frente a frente, no centro.

Almoço de negócios e passeio pelo hotel

Após a reunião, os presidentes participaram de um almoço de negócios. Para o cardápio foram preparados pratos que combinam sabores asiáticos e do Ocidente. A Casa Branca divulgou que no menu foram servidos coquetéis de camarão acompanhados de salada de abacate, kerabu de manga verde com mel de lima, polvo fresco e pepino recheado. Os pratos principais foram: costeletas de boi ao molho de vinho tinto, com batatas gratinadas e brócolis ao vapor; carne de porco crocante com molho agridoce e arroz frito com molho picante e bacalhau na brasa com soja e verduras asiáticas.

Como sobremesa, Donald Trump e Kim Jong-un foram servidos com tortas de ganache de chocolate amargo; sorvete de baunilha com calda de cereja e torta tropézienne, uma sobremesa francesa com massa de brioche recheada com creme.

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Depois de 3h30 de reuniões, os líderes deixaram a sala onde almoçaram juntos e passearam até outra área do hotel Capella, onde se separaram para se reunir com suas respectivas delegações e avaliar os progressos da cúpula.

O presidente americano disse que sua reunião com o líder da Coreia do Norte foi “melhor do que o esperado” e ambos planejaram assinar em breve um documento, sobre o qual não deu detalhes. “A reunião foi realmente fantástica. Ocorreram muitos avanços. O máximo! Melhor do que se poderia esperar”, disse Donald Trump em uma rápida declaração para a imprensa durante seu passeio com Kim Jong-un.

Desnuclearização

A dinastia Kim dedicou os últimos 26 anos à construção de um arsenal nuclear na Coreia do Norte com capacidade de atingir seus vizinhos e o território dos EUA. Seu desmantelamento, como exigido por Donald Trump, pode demorar até uma década, em um complexo processo que exigirá concessões mútuas e a manutenção de confiança a cada passo, afirmam especialistas.

Nenhum país que tenha chegado ao estágio da Coreia do Norte concordou até hoje em abrir mão de seu programa nuclear. Signatário do mais ambicioso acordo do tipo, abandonado por Donald Trump, o Irã não desenvolveu ogivas nucleares. Os serviços de inteligência dos EUA estimam que Kim Jong-un tenha entre 30 e 60 a seu dispor. A Líbia possuía um programa rudimentar quando aceitou seu desmantelamento, em 2003, o que foi feito no espaço de quatro meses.

O “modelo líbio” chegou a ser mencionado pelo chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, como um roteiro a ser seguido no caso norte-coreano. A declaração despertou a ira de Pyongyang e levou Trump a abandonar a ideia. O presidente, então, passou a falar em um “processo” que se desenrolaria em etapas.

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Professor da Universidade de Stanford, Siegfried Hecker visitou a Coreia do Norte sete vezes e foi o último cientista americano a inspecionar as instalações nucleares do país, em 2010. Em um estudo divulgado há pouco mais de dez dias, ele e dois colegas de Stanford estimaram que a total desnuclearização poderia levar dez anos. O mandato de Trump termina em dois anos – ou seis, se ele for reeleito.

Os cientistas previram três etapas, com distintos horizontes de tempo: “interrupção”, que ocorreria em menos de um ano, “redução”, de dois a cinco anos, e “eliminação”, que seria implementada no espaço de seis a dez anos. No estudo, eles ressaltam que os prazos podem ser encurtados ou alongados dependendo do ritmo das negociações.

Os passos iniciais seriam obviamente os mais fáceis e envolveriam a suspensão de testes nucleares, de lançamentos de mísseis de longo alcance, da produção de plutônio e urânio enriquecido e da exportação de armas, materiais e tecnologia nuclear. Em sua mensagem de ano-novo, Kim declarou que o país havia concluído o desenvolvimento de seu programa nuclear. No dia 22 de abril, ele anunciou a suspensão de todos os testes.

A etapa seguinte seria mais desafiadora e envolveria a declaração do número de ogivas nucleares e o início de sua redução. As centenas de mísseis e foguetes teriam de ser declarados, desmontados e monitorados. As instalações que produzem plutônio e urânio enriquecido também teriam de ser reconhecidas e algumas delas, desabilitadas.

Nos últimos quatro anos, haveria a destruição de ogivas e mísseis e o desmantelamento de toda a estrutura de produção de combustível nuclear. Por razões de segurança, os professores de Stanford são contra o envio de bombas ao exterior e defendem que todas sejam desmontadas pelos mesmos engenheiros que as criaram.

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O fator humano é outro desafio. A Coreia do Norte tem milhares de cientistas dedicados a seu programa nuclear e seu conhecimento não pode ser destruído ou despachado a outro país. Hecker e seus colegas propõem que eles sejam redirecionados a atividades nucleares civis, como produção de energia, e ao desenvolvimento espacial. Em sua opinião, Kim não abrirá mão desses dois elementos, por razões técnicas e simbólicas.

“A abordagem sugerida tem como base nossa convicção de que a Coreia do Norte não abrirá mão de suas armas e de seu programa enquanto sua segurança não estiver garantida. Esta não poderá ser obtida apenas com uma promessa americana ou um acordo no papel. Ela vai requerer um período substancial de coexistência e interdependência”, escreveram os cientistas.

“Tudo isso vai demorar anos”, disse Sue Mi Terry, especialista em Península Coreana do Center for Strategic & Internacional Studies (CSIS). Analista da região na CIA de 2001 a 2008, ela observou que o longo período dará chances para Pyongyang burlar seus compromissos. Sue lembrou que EUA e Coreia do Norte fecharam um acordo em 1994 e, até 2002, os americanos acreditavam que ele estava funcionando. “Eles podem comprar tempo e esperar que o governo Trump acabe”, afirmou Sue, que estima um período de cinco anos para a desnuclearização.

Para amenizar esse risco, será necessário um regime de verificação, que só funcionará se houver concordância da Coreia do Norte. Ainda assim, há a possibilidade de Pyongyang manter atividades clandestinas, especialmente o enriquecimento de urânio, ressaltou Michael Green, que integrou o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca de 2001 a 2005. “É muito mais difícil de detectar (o enriquecimento de urânio), pois não são necessárias torres de resfriamento”, disse. “É possível fazer isso em cavernas, girando centrífugas.”



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