Afinal, qual é o conteúdo do livro mostrado por Bolsonaro no JN?

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Em sua participação na série de entrevistas do Jornal Nacional com os candidatos às presidência na última terça-feira (28), Jair Bolsonaro (PSL) acabou apresentando um livro que pertenceria ao chamado “kit gay” que seria distribuído em escolas durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, antes que a ideia fosse abandonada.

Mas afinal de contas, qual é o conteúdo deste livro? E ele realmente fez parte do “kit gay” que seria distribuído em escolas? Entenda mais abaixo.

O livro em questão

Esse livro mostrado por Jair Bolsonaro se chama “Aparelho Sexual e Cia”, e na realidade, foi publicado em 2001 na França, sob o nome de “Le Guide du Zizi Sexuel”. De autoria da escritora Helene Bruller e ilustrado pelo cartunista apenas conhecido como Zep, ele foi desenvolvido com o intuito de ensinar educação sexual para crianças e pré-adolescentes com idades entre 11 e 15 anos.

O livro é aquilo que muitos considerariam politicamente incorreto, pois ele chega a abordar temas como o primeiro amor, a descoberta do sexo e o que é uma ejaculação com algumas imagens consideradas explícitas por algumas pessoas.

E além disso, a obra também é interativa: por exemplo, existe uma página em que o leitor pode recriar o órgão sexual masculino com um dos dedos.

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Uma imagem do conteúdo do Aparelho Sexual e Cia

O Aparelho Sexual e Cia foi lançado no ano de 2007 no Brasil, pela editora Companhia das Letras, que já defendeu a obra. A empresa disse que o livro tem “sólida base pedagógica e rigor científico” para abordar os aspectos da sexualidade humana. E que consegue explorar de forma mais leve assuntos importantes como contracepção e doenças sexualmente transmissíveis.

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A Companhia das Letras também afirmou que a publicação possui uma seção que alerta crianças e pré-adolescentes sobre situações de abuso sexual e pedofilia, alertando ao público alvo que essas práticas são consideradas crimes.

“O conteúdo da obra nada tem de pornográfico, uma vez que, formar e informar as crianças sobre sexualidade com responsabilidade é, inclusive, preocupação manifestada pelo próprio Estado, por meio de sua Secretaria de Cultura do Ministério da Educação que criou, dentre os Parâmetros Curriculares Nacionais, um específico à ‘Orientação Sexual’ para crianças, jovens e adolescentes”, complementou a Companhia das Letras.

Por fim, uma curiosidade: esse menino com topete loiro que está presente na capa e no conteúdo do livro se chama Titeuf e é bastante conhecido na França. Fazendo uma analogia, é como se Maurício de Souza tivesse lançado um livro com conteúdo semelhante estrelado pela Turma da Mônica.

O livro foi traduzido para 10 idiomas diferentes e já vendeu 1,5 milhão de cópias no planeta. Caso tenha curiosidade em conhecer o conteúdo, uma youtuber francesa folheou a obra por completo. Clique aqui para assistir (atenção: está em francês).

Esse livro foi realmente comprado pelo MEC e seria distribuído nas escolas?

Durante sua participação no Jornal Nacional, Jair Bolsonaro deu a entender que o Aparelho Sexual e Cia estava entre os livros que seriam parte do projeto “Escola sem Homofobia”, criado pelo Ministério da Cultura (MEC) em 2010.

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Esse projeto chegou a ser lançado pela ex-presidente Dilma Rousseff e se tratava de um kit que seria distribuído para professores e alunos do Ensino Médio em todo o país, que abordava assuntos como direitos LGBT e o combate ao preconceito no ambiente escolar. No entanto, ele foi abandonado por conta da pressão feita por grupos conservadores, que o denominaram informalmente de “kit gay.”

No entanto, é importante ressaltar que o livro não estava entre os que faziam parte deste projeto, pois o MEC divulgou em uma nota à imprensa, em 2016, que ele não se encontra na lista de livros recomendados pelo ministério e sequer está nos chamados Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). Clique aqui para ver o comunicado.

E até mesmo a Companhia das Letras se manifestou sobre o assunto. “Ao contrário do que afirmou erroneamente o candidato à presidência em entrevista ao Jornal Nacional na noite de 28 de agosto, ele (o livro) nunca foi comprado pelo MEC, como tampouco fez parte de nenhum suposto kit gay”, disse a empresa, em nota.

Na realidade, o que pode ter levado Jair Bolsonaro a fazer a afirmação é que algumas bibliotecas espalhadas pelo país, de fato, receberam o livro. Só que ele foi comprado, na realidade, pelo Ministério da Cultura, e não pelo MEC, como parte de um programa chamado Livro Aberto.

Em outras palavras, o livro realmente foi comprado pelo governo, No entanto, se encontra apenas em algumas bibliotecas do país e não foi distribuído em escolas como parte de qualquer projeto.

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