A psicologia do ódio: o que motiva a supremacia branca?

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A manifestação “Unite the Right” (unir a direita, em tradução literal), que ocorreu na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia, nos EUA, deu muito o que falar não apenas dentro do próprio território americano, mas também no mundo todo. Os manifestantes, de extrema-direita e defensores da supremacia branca, entraram em confronto com grupos opositores, o que resultou em uma morte e 19 feridos após o supremacista Alex Fields Jr., acelerar seu carro contra uma multidão.

A supremacia branca – a visão de que os brancos são racialmente superiores aos demais – e o Neonazismo não são assunto novos, como todos sabemos. Mas uma pesquisa recente sugere que as ideologias estão se tornando cada vez maiores. Por exemplo, o Programa de Extremismo da Universidade George Washington, nos EUA, descobriu que o número de organizações brancas nacionalistas com perfis no twitter aumentou em mais de 600% o seu número de seguidores, em um período de quatro anos.

Mas o que leva uma pessoa a seguir tais ideologias de ódio? Novas pesquisas sugerem que as tendências de agressão em traços de personalidade (como a psicopatia, o maquiavelismo e o narcissismo) são mais comuns entre os supremacistas, que identificam o movimento como direita alternativa, ao contrário do senso comum. Mas, ultimamente, o extremismo racial pode ter outras origens, segundo outro estudo. Os aspectos da supremacia branca são tão fortes que até mesmo uma pessoa que não possui parentesco branco pode aderir a ideologia.

“O racismo e crenças raciais não são, geralmente, baseados na lógica, pelo menos não no senso de uma lógica objetiva e científica”, explicou John Cheng, professor da Universidade de Binghamton, no estado de Nova Iorque, nos EUA. “Em outras palavras, as pessoas possuem uma forma de acreditar naquilo que querem acreditar”, complementou.

O processo de radicalização

A proeminência recente de supremacistas brancos como força política parece estar ligada, intrinsecamente, com a vitória de Donald Trump na última eleição americana. Perfis supremacistas brancos no Twitter pediam para seus seguidores retuitar dois tópicos, em especial: “genocídio branco” e Donald Trump, segundo relatório da Universidade George Washington. Durante os eventos de Charlottesville, líderes do movimento, como David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan, enalteceram os comentários de Trump, que condenou a violência dos dois lados.

“Obrigado, presidente Trump, por sua honestidade e coragem de falar a verdade sobre Charlotesville e condenar os terroristas de esquerda”, disse Duke, em seu perfil no Twitter.

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Existem agravantes políticos que estão aumentando o movimento supremacista branco, disse Sammy Rangel, assistente social e co-fundador do grupo “Life After Hate” (Vida Após o Ódio), que visa ajuda pessoas que possuem tendências supremacistas. Rangel e seus colegas escutam duas razões comuns para pessoas entrarem em tais grupos.

A primeira é a raiva a respeito de políticas públicas para outros grupos, que os supremacistas acreditam ser opressivas e pouco justas para as pessoas brancas. A segunda é o ressentimento sobre conceitos como “privilégio branco”, o que faz muita gente acreditar que não deveria assumir a vergonha e a culpa das ações de seus ancestrais.

Argumentos sobre o privilégio branco e ações para outros grupos até podem gerar certos debates políticos, mas para aqueles que cruzam a tênue linha de visitar o fórum neonazista Stormfront ou tuitar memes nazistas, tais agravantes são um primeiro passo para procurar bodes expiatórios, disse Rangel. E lemas como “fazer a América grande novamente” só enaltecem esses pensamentos.

“Todas essas coisas vendem a percepção de que essas ideias são válidas. Se você escuta de alguém bastante influente, então deve ser verdade”, disse Rangel.

E existe também a vulnerabilidade pessoal. Supremacistas iniciantes são como átomos que precisam de um próton, afirmou Rangel. Eles aparentam estar faltando algo, no ponto de vista social e emocional, e as organizações supremacistas ajudam a preencher esse vazio

“(Essas pessoas) São vulneráveis ao receber mensagens desses projetos ideológicos. Eles são fáceis de se encaixar nessa estrutura. Eles começam a se sentir empoderados. Seu senso de aventura é ativado  e se tornam parte de algo maior e com mais sentido para suas vidas”, explicou Rangel.

O poder da divisão racial

A questão da raça é um conceito poderoso dentro da história americana, disse Rangel, que sobreviveu a um tumulto racial quando estava preso, na década de 90. A raça é um ponto fácil para gerar ódio e violência. E a desumanização de algumas delas parece ser um atitude que ajuda a diferenciar os supremacistas brancos dos demais cidadãos americanos, incluindo aí certos membros da chamada direita alternativa.

Os professores Patrick Forscher e Nour Kteily decidiram investigar as atitudes de membros da direita alternativa em relação a pessoas que não seguem o movimento. Os alternativos são indivíduos que apoiam o nacionalismo branco, políticas protecionistas e o populismo de direita. Como não existe uma definição clara desse conceito, Forscher e Kteily perguntaram, pessoalmente, a pessoas se elas se consideravam parte do grupo. Eles também pediram uma definição do movimento e mostraram pesquisas para aqueles que deram respostas sem sentido o que pareciam retiradas do Google.

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Os pesquisadores notaram que os membros da direita alternativa costumam afirmam que são vítimas de certas agressões e que é mais comum encontrar traços de personalidade negativos, especialmente a psicopatia, entre essas pessoas.

Os “direita alternativa” também são mais maquiavélicos. Em outras palavras, possuem mais desejo de manipular os outros para seus ganhos pessoais, e também são mais narcissistas e costumam desumanizar minorias e certos grupos, como funcionários do governo e jornalistas, disse Forscher.

Outro ponto interessante da pesquisa é que havia uma divisão dentro do próprio grupo. Uma parte era a favor de atitudes e crenças que podiam ser considerados “populistas”. Já a outra parte era realmente “supremacista”, e eram simplesmente mais extremos, de diversas formas.

Forscher espera que a pesquisa e a sua continuação ajudem a descobrir uma forma de auxiliar os supremacistas brancos a abandonar tal pensamento.

“As pessoas da direita alternativa, no geral, estão fazendo coisas que são más. Eles costumam assediar os outros, eles revelam informações de outras pessoas online e possuem diversas características que são associadas com comportamento agressivo. Acho que devemos pensar seriamente em uma forma de evitar que aconteçam coisas iguais as que ocorreram em Charlottesville”, explicou Forscher.

O desafio de mudar atitudes

Fazer uma pessoa abandonar o pensamento da supremacia branca não é algo fácil. Um estudo, que ainda não foi publicado, mas já foi apresentado, mostrou como isso pode ser difícil: até mesmo quando racistas descobrem que eles não são inteiramente brancos, eles ainda mantém seus atos segregacionistas.

A pesquisa focou o site Stormfront (citado acima), no qual seus usuários devem ser europeus e sem qualquer tipo de descendência judaica. O site teve início em 1996, e é um verdadeiro local para propagar os pensamentos supremacistas.

Aaron Panofsky, sociólogo da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, estudou, com o auxílio de seus colegas, os supremacistas do Stormfront, e logo perceberam que alguns usuários não eram tão “brancos” quanto esperavam.

Panofsky e seus colegas analisaram publicações a respeito de testes genéticos, que eram publicados por membros do site. Um terço celebrava o fato de ter ancestrais europeus puros. O segundo terço apenas publicava o resultado, sem qualquer tipo de comentário. E o terço final mostrava seu “desapontamento” em não ter descedência europeia completa.

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Surpreendentemente, para um grupo que valoriza a pureza racial, os usuários do Stormfront praticamente não excluíram aqueles que não eram europeus “puros”. Ao invés disso, tinham preferência em rejeitar o teste do que a própria pessoa.

“Meu conselho é você confiar na árvore genealógica de sua família e no que os seus avós lhe disseram, antes de acreditar em um teste de DNA”, disse um usuário para outro que “falhou” no teste.

Alguns rejeitam esses testes, afirmando que se trata de uma “conspiração dos judeus” para fazer as pessoas duvidarem de sua herança genética. Já outros promovem o “teste do espelho”. Você vê uma pessoa branca quando se vê no espelho? Ótimo, você é branco. E há quem tente utilizar argumentos científicos sem nexo para denegrir os testes.

É algo similar promovido por aqueles que negam a evolução e utilizam paralelos pseudocientíficos para promover seus conceitos, disse Panofsky.

O professor também comentou que os supremacistas brancos não são burros ou ignorantes: eles são apenas capazes de utilizar certos argumentos complexos e duvidosos para dar suporte a sua visão de mundo. Eles também possuem a capacidade de colocar a proximidade dos membros do Stormfront à frente de informações genéticas.

“O que o Stormfront está dando para várias pessoas é um local para encontrar pessoas e ter amigos. Muitas coisas abordadas são sobre dicas de namoro e ‘como que posso lidar com a minha família’. Alguém pode não se encaixar no critério ideológico, mas se encaixa no critério da comunidade”, disse Panofsky.

Sammy Rangel disse que o primeiro passo para a reabilitação de uma pessoa é o genuíno desejo do próprio indivíduo em entender porque acreditou nesse tipo de ideologia.

“Não estou aqui para te desafiar. Estou aqui para escutar”, disse Rangel, a respeito do desafio em fazer uma pessoa abandonar essa ideologia. Um método é desafiar essas crenças, mas em uma atmosfera de genuidade e compaixão. A outra chave é recriar um ambiante de suporte social e com  significados.

“Eu tenho de ajudá-los a preencher suas necessidades, que são as mesmas que o fizeram entrar para esses grupos”, complementou Rangel.

Fonte: LiveScience

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